“Você só estuda!” – Por que ser estudante também cansa (e como estudar melhor)

“Você só estuda!” – Por que ser estudante também cansa (e como estudar melhor) 

“Como assim, você diz que não tem tempo? Você só estuda!”

Muitos de nós já ouvimos essa frase ou até mesmo a dissemos para algum adolescente em período de provas ou se preparando para entrar na universidade. Quando o jovem escuta isso, acha a afirmação muito injusta. E, para falar a verdade, eu também. Estudar também cansa e pode causar estresse, e é isso que muitas pessoas não levam em consideração.

Como professora, gosto muito de trabalhar com adolescentes e jovens. Uma das coisas que tenho percebido, a partir dos relatos deles, é que, a partir de determinada fase da vida escolar, a cobrança aumenta muito. O volume de conteúdo só cresce, e em épocas de provas e simulados, muitos têm dificuldade para administrar toda essa rotina.

Além disso, alguns pais fazem questão de que os filhos participem de várias atividades extracurriculares, o que também é importante, mas isso torna a agenda ainda mais intensa. Estudar às vezes em dois turnos várias vezes por semana e ainda dar conta dos outros compromissos da vida pode ser comparado a uma maratona: é preciso muita determinação e foco para manter um bom desempenho.

Aproveitando essa discussão, achei que seria interessante falar sobre alguns erros que alunos com uma rotina intensa de estudos não devem cometer.

1 – Não dormir o suficiente

Muitos de nós  subestimamos o valor do  descanso, mas  não podemos ignorar a capacidade regenerativa do nosso cérebro. A tentação de estudar só mais um pouquinho ou até mesmo de usar o telefone na hora de dormir pode atrapalhar as horas de sono. Afinal,  por  que o descanso é tão importante?

Consolidação da memória – o cérebro não armazena memórias enquanto você estuda ou lê as suas anotações, mas enquanto descansa. Durante o sono profundo, o sono REM, há um processo chamado potencialização de longa duração no qual a mente armazena as informações de longo prazo.

O cérebro usa o período do sono para fazer uma limpeza geral – enquanto você dorme, o sistema nervoso faz a remoção de toxinas  que se acumulam durante o dia. Se você não dorme o suficiente, esses resíduos podem formar um brain fog ( névoa mental), o que pode atrapalhar o seu processo de aprendizado.

2 – Deixar o estresse tomar conta

Você sabia que existem dois tipos de estresse, o bom e o ruim? O estresse bom, que é chamado de eustresse, é o elemento que o corpo precisa; ele aumenta o foco e a adrenalina para as provas. Já o distresse é aquele estado de ansiedade e nervosismo que pode liberar substâncias em nosso organismo que interferem na formação das memórias. As possíveis causas de distresse no estudante são as seguintes:

Privação social – o estudante às vezes evita passar tempo com os amigos ou família para poder estudar mais algumas horas. Por isso, pode perder passeios ou momentos leves com aquelas pessoas que ele gosta.

Carga cognitiva – Tentar absorver muitas informações de uma só vez pode cansar o cérebro e dificultar a aprendizagem. Além disso, nossa mente precisa de tempo para organizar e consolidar o que foi aprendido. 

Autoexigência punitiva – Se o aluno obtém alguma nota baixa, se culpa e se cobra demasiadamente, o que gera cada vez mais ansiedade.

3 – Não estudar da maneira correta

Estudar com eficácia para provas e simulados não é somente tentar memorizar o máximo de informações possíveis aleatoriamente. Muitos cientistas se dedicam ao estudo da neurociência há muitas décadas para que as pessoas consigam estudar cada vez melhor:

Repetição espaçada – Esse método consiste em estudar o conteúdo que se precisa absorver ou memorizar em dias alternados de maneira constante. De acordo com a neurociência, se o cérebro tenta recuperar uma memória que está quase perdida, as conexões criadas na mente sobre aquele conteúdo ficam mais fortes.

Recuperação ativa – Essa também é uma técnica bem interessante. Ao invés de ficar lendo as informações no livro ou suas anotações aleatoriamente, tente lembrar as respostas dos exercícios ou simulados sozinho. Uma outra opção é explicar a matéria para você mesmo ou para um colega. Isso reativa os mesmos circuitos neurais envolvidos na aprendizagem inicial do conteúdo e faz com que essas memórias fiquem cada vez mais fortes.

Depois de falarmos sobre os erros, aqui vai um resumo de dicas importantes para ajudar você a estudar melhor:

  • Tenha uma rotina de sono regular        
  •  Priorize os seus horários de descanso 
  • Divida os estudos em blocos com pausas regulares e utilize métodos eficientes
  • Tenha vida social
  • Desenvolva autocompaixão e conheça seus limites – reflita sobre seus avanços e valorize cada pequena vitória

É claro que a vida adulta exige muito mais do que a fase em que ainda não trabalhamos e não temos tantas responsabilidades, contas para pagar e outras preocupações do dia a dia. Mas isso não significa que a rotina de estudos seja fácil ou que quem “só estuda” não tenha motivos para estar cansado. Estudar exige esforço, disciplina e muita energia mental. Conhecer o funcionamento do cérebro e adotar estratégias de estudo mais eficientes pode tornar esse caminho um pouco mais leve.

Author:  Juliana Malheiros

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